Preços baixam para atrair argentinos durante a temporada de verão

 

No sábado (22) começa a primavera e vão faltar 90 dias para o começo do verão. A preparação para a próxima temporada já começou em Santa Catarina. Porém, este ano a preocupação maior se relaciona com a presença dos turistas argentinos que, anualmente, lotam as praias do Norte da Ilha em Florianópolis. Com uma crise interna grave e o preço do dólar frente ao peso dobrando em relação ao último verão, o sinal vermelho acendeu para empresários que possuem negócios ou empreendimentos que sobrevivem da movimentação turística. Em uma imobiliária consultada pelo Conexão, o pedido de reservas da Argentina caiu 50% em relação a 2017. Até os hotéis estão baixando as tarifas para conseguir atrair esse público que vai gastar menos na temporada.

Para vir de férias, os 330 mil argentinos que estiveram na Capital na última temporada, trocam o peso pelo dólar. Chegando ao Brasil, eles fazem a conversão novamente e acabam ganhando mais dinheiro na troca. Só que na última temporada, o valor de U$$ 1 dólar era $ 20 pesos. Hoje, o valor dobrou com possibilidade de aumentar para $ 60 pesos até o fim do ano, segundo preveem economistas. No país vizinho, a moeda se desvalorizou e a inflação disparou.

Em uma imobiliária dos Ingleses, os hermanos diminuíram o número de reservas para o verão em 50%, se comparado o mesmo período do ano passado. Para tentar driblar a crise argentina, a SC Imóveis está diminuindo ou congelando preços para aluguéis de temporada. Segundo José Carlos de Oliveira, proprietário, para o período pós-réveillon os valores de apartamentos com ar-condicionado, TV e internet estão sendo segurados.

“Um apartamento de um dormitório, não pode passar de R$ 200 reais por dia. Dois dormitórios R$ 300 e três R$ 400. Isso, no período intermediário da temporada, depois do ano novo e antes do Carnaval. Nos períodos de maior movimento, estamos colocando aqui para a virada, por exemplo, valores que chegam a R$ 300 reais para um imóvel de um quarto, R$ 400 de dois dormitórios e R$ 500 por dia se for de três quartos. Precisa haver uma conscientização de que se não baixarmos preços em vários setores neste verão, os turistas argentinos não vão vir para nossas praias e ninguém ganha nada”, comentou.

A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Santa Catarina (ABIH/SC) também confirmou a diminuição no valor das diárias de hotéis. Osmar Vailatti, presidente da entidade, explicou que não só a redução de valores, mas o prazo para pagamento também está mudando. “A consciência do hoteleiro é real que vivemos um momento difícil. Temos que atuar com promoções, tarifas e preços menores, prazos mais dilatados de pagamento para mantermos o nosso faturamento. Isso é certeza, tarifas menores. Quando faltam turistas, você faz isso. Não só em Santa Catarina, mas diárias em todo o país estão menores para não perder venda. É uma política nova que os hoteleiros estão tendo para não deixar quartos vazios”, explicou. A associação ainda não calcula perdas, pois espera a Feira Internacional do Turismo (FIT) marcada para Buenos Aires no mês de outubro.

Uma reportagem do jornal argentino Clarín, publicada na semana passada, adjetivou como “caro” um voo de ida e volta para um casal que vem férias para Florianópolis. A pesquisa realizada pela publicação colocou o trecho a $ 20 mil pesos, enquanto no último verão o valor era a metade. Uma casal e dois filhos sai por $ 85 mil pesos, cerca de R$ 8,5 mil. No Facebook, agências argentinas comercializam pacotes de sete dias em Canasvieiras com voo, hotel (7 noites), traslado e meia pensão negociado a $ 65 mil pesos por pessoa, cerca de R$ 6,5 mil reais. Existem pacotes mais baratos. Outra agência negocia em valores que chegam a $ 22 mil pesos, o que dá R$ 2,2 mil reais no câmbio do dia 19/09. Uma empresa de Buenos Aires montou pacotes de ônibus e hospedagem em Canasvieiras por 7 noites por $ 19 mil pesos, cerca de R$ 1,9 mil por pessoa. Uma agência consultada pelo Conexão confirmou que está sofrendo muitas consultas, mas não tem fechado pacotes para Florianópolis.

Para Vinicius de Lucca, superintendente de turismo de Florianópolis, ‘provavelmente’ teremos menos turistas argentinos nesta temporada, sendo que no ano passado 330 mil visitaram a cidade. Segundo ele, ações já estão sendo desenvolvidas. “Estamos trabalhando para que eles não venham no período de alto movimento. Estamos buscando a negociação com as empresas que fretam voos para que eles venham para cá fora do período de altíssima temporada (Ano Novo e Carnaval). As tarifas estão mais altas no ano novo em Florianópolis. Queremos colocar para a segunda semana de janeiro. Estamos tentando colocar também para março voos charter, quando as tarifas estão mais baixas”, comentou. Ele ainda não especula quanto deve ser a redução no número de argentinos na cidade.

Quem lida com o turista

Foto: Divulgação

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel/SC) confirmou que a temporada será ditada pelo câmbio. Eles acreditam na redução no número de argentinos. Segundo Raphael Dabdab, presidente da associação, o setor trabalha com a redução no número de turistas e que os preços serão pautados pela concorrência. “Florianópolis tem um restaurante por mil habitantes. (…) Não teríamos artifícios para regularizar os preços. Vimos na última temporada turistas frequentando mais supermercados e atacados, do que restaurantes. Entendemos que existem abusos de preços, mas são pontuais. Não é a grande maioria. Hoje o empresário luta para sobreviver. No verão, o empresário tira as promoções e não aumenta os preços. Porém, camarão e filé mignon triplicam de preço (no fornecedor) no verão”, comentou. Ele disse ainda que não faz sentido o dono do restaurante aumentar o preço e não ganhar na quantidade, quando não há muito movimento. “O maior inibidor de abusos é a concorrência”.

Eduardo Loch, presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem (ABAV/SC), acredita que quem ia para outros destinos mais distantes daqui, deve vir para Florianópolis. Ele não aposta em diminuição de preços ou congelamento de tarifas. “Queremos um turismo que seja profissional. (…) Nós precisamos qualificar o turista. Precisamos de uma cidade que seja boa para o turista”, afirmou. Ele defende que o turista que venha tenha condições financeiras de gastar na cidade, além de comentar que haverá um incremento de turistas vindos do Chile diretamente para a Capital.

Fonte: Jornal Conexão